Sexta-feira, 3 de Novembro de 2006

Atentado à cultura

Falsificaram a música, a arte, a vida. No mundo de hoje, absolutamente tudo é falsificável. Basta passear nas ruas e observar a quantidade de “produtores” espalhados pelas calçadas. «Caso o senhor não encontre a mercadoria desejada, pode fazer o pedido que amanhã mesmo o produto estará nas suas mãos». É assim que a arte é vendida: pede-se aos produtores, e eles reproduzem. Embora esse fato seja mais evidente nos amontoados de cds e filmes, produzidos em massa durante o ano, a falsificação da cultura é geral. Tanto no que diz respeito à sua origem, quanto à sua forma. Nada mais é inédito. As idéias e os conteúdos são todos uma repetição constante. A arte, então, ganha um valor independente da sua importância cultural. Por estarmos inseridos em um sistema capitalista, baseado na busca incessante do dinheiro, debruça-se sob a arte somente o propósito do lucro. Na maioria das vezes, os critérios de escolha do conteúdo e do tema a ser tratado são conduzidos por interesses puramente mercadológicos. Escolhe-se por aquilo que possa render mais lucro às empresas patrocinadoras. Essa equivocada concepção modernista de realização da arte é, certamente, uma das responsáveis pela pauperização da nossa cultura. Lamentavelmente, estamos diante de uma total inversão de valores. Os artistas talentosos e dispostos a fazer arte - na sua concepção verdadeira - e as pessoas interessadas em promover cultura aparecem cada vez mais isolados. Para elas, não existem facilidades, tudo é conseguido com o mais absoluto desgaste e decepção. Não é à toa que muitos deles desistem de levar adiante seus projetos. Quem mais sofre com isto é o povo, que por ingenuidade, ou até mesmo por falta de escolha, é levado a consumir e engolir um conteúdo indigesto. E uma vez inserido nesse cenário de repetições e convencimento, o povo passa a ser peça fundamental nesse episódio deprimente, pois é exatamente ele quem estimula a cada vez crescente criação do falso. Comprando os produtos falsificados, o povo se defende com o argumento de combater um mercado milionário dos donos de gravadoras, produtoras, empreendedoras. Sim, não é possível negar a existência dessas mega empresas, mas é um equivoco sustentar uma defesa com base nesse pensamento. Pois, paralelo ao mercado formal de empresas milionárias, existe um outro igualmente oportunista e ganancioso que se alimenta dessa justificativa do povo para explorar cada vez mais pessoas e ganhar quantidades absurdas de dinheiro. A verdade é que o mercado de produtos falsificados, no Brasil, atinge um universo difícil de ser enxergado. O resultado desse desvio é lamentável. Perdemos o foco. Perdemos as rédeas. As carroças estão desgovernadas e seguem velozmente ladeira abaixo. Talvez não seja mais necessário criar uma concepção de arte detalhada e plena; talvez as pessoas já estejam acostumadas a esse turbilhão de informações secas, vazias; talvez o universo de artistas criativos e talentosos esteja escasso. As justificativas para essa realidade são inúmeras. Mas não, eu não posso acreditar em nenhuma dessas idéias, pois quando aceitamos algo, nos posicionamos de modo pacífico a ele. E jamais serei pacífica a tal atrocidade. Fechar os olhos para o assassinato lento e cruel da arte é abster-se de viver pelo prisma da fantasia, da magia, do encanto. É dar as costas ao imaginário criativo, à possibilidade de interpretar, por meio de outros olhares, as coisas perceptivas do mundo visível. E isto é muito para ser descartado.
publicado por Amandinha às 21:21

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